sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A Força da Paixão

De um lado ele, do outro, ela…
O mar e a terra separando os dois
A mesma chama queimando a ele e a ela
Ambos não contêm o expirado fôlego de bois!

E ouve-se de lá chiando os dois
A  terra e o mar que observam,
A conter  energia dos dois sóis
Que sem as mãos não desbravam.

A energia contida nos órgãos
Fazem-nos avolumar, respirar,
E latejar, sem dor nos pés e mãos,
Mas sim de prazer a enfartar.

Se é o que arde que os faz espirrar,
O que é doce os faz lamber os beiços,
O que é salgado vai a tensão alterar,
O corpo em tudo redobra em esforços.

Que coisa é essa que sinaliza a vitalidade,
Enlouquecendo qualquer um que a porta,
Desrespeitando preconceitos da sociedade,
Sem desprimor pelos valores que importa?

Essa coisa é a atracção de dois que se queiram,
E se entregam, cegos por quem se lhes vê,
Ensurdecidos para o que deles se ouve,
Sem sentir o cheiro que no momento exalam!

A atracção confisca a fraqueza e confere forças
Mais do que o ardor de Camões, o amor é doce
E omite qualquer sofrimento, sem esforços,
Só requerendo a ausência de foice e coice.


Amália Faustino, Santiago de Cabo Verde

domingo, 14 de agosto de 2011

Nasce o saco azul

Nasceu uma criança
Que trouxe numa mão uma alça
E a alça desprendera-se de algo
Que já não se via o seu apego!

Depois da criança
Um saco de abastança
Também nasce e se despeja
Na presença de quem peleja.

Inscrita no saco se vê:
Eu sou a tua abastança
Boa sorte a quem me vê
E me leva como herança!

Com as moedas de ouro
Torna-se rico e a parentes seus
Distribui parte do tesouro,
Assumindo o controlo dos fariseus.

E o saco de cor azul,
Da cor do céu do continente,
Do país e concelho decadente
É, num certo sítio, um paul.

E lá, cada quem é como cada qual,
Cada um seu bolso, e de lá a bolsa,
Se de qualquer controlo, tudo normal,
A contabilidade, existindo, é falsa.

Amália Faustino Mendes, 14 de Agosto de 2011

Quero-te como amigo

Descobri nos teus olhos o brilho do bem-querer
Nas  tuas mão, experimentei a onda do teu o calor
Mas nada expirava a verdadeira amizade de valor,
Mas a antítese dos sentimentos benévolos , a valer.

Instiga a tua afeição, libertando o teu carinho!
Normaliza o teu próprio ser, desfeito em vinho,
Toca-me sem receio, com dileção te sentirei
 Entrar no jogo de amizade comigo, com estima!


Insiste e não nega a fingir, que a amizade não queres;
O afecto que todos desejam, faz crescer a pujança
O carinho que eu possa necessitar, receber preferes
E a ser recíproco, o bem que me faz, cola-te na lembrança.

Respondendo o palpitar do teu coração, em rima
Negando perfumar-se com álcool, e eu te direi:
 Amigo! Abraça-me e me enrola como queres
Comunga comigo o afecto que tanto bem faz aos seres!

Nutrida por sentimentos positivos desde a nascença,
Arquitetada com desvelo de pais e irmãos e gentes
Liga-te a mim para juntos fazermos  a benquerença
Interessando-nos pelos sentimentos emergentes!


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Lembro-me, pai

Uma grande saudade de ti me invade
Nestes dias, provocando-me lembranças
Em raios de negrura das paredes maciças
Ladeando a tua limitada e pobre herdade!

Na tua pobre herdade jazes de certeza,
Sem dúvida, aqui resiste o que não pesa;
O pó invisível em que te transformou
O teu rico crânio que teu filho cobiçou…

Agora misturaste-te a todos, donde entraste,
E a possibilidade de to roubar me retiraste;
Resta-me o pouco ou tudo que me deixaste
Admitindo confirmar que me preservaste!

Agradecido, pai, pela herança e pelo dote
De que me sirvo para me afirmar como gente;
Na vida difícil, destes tempos, pude ser ciente
Graças à perspicácia do teu ser inteligente!

Agora ressinto a presença  de tuas herdades,
Sei que és capaz de me ver chorar de saudades,
Mas peça a outro Pai imortal que me aguente
Me catapulte para patamares não decadentes.

Mar da cidade velha











Ó mar cinzento da velha cidade!

Paro à tua beira, em êxtase e sagacidade,
Contemplo o teu ir e vir incessante
Sem nenhum ritmo constante.

E vejo-te ladeado de ovais calhaus
Talhados a crânio de homens maus,
Lembrando-me a história das origens
Da Cidade Velha e das suas miragens.

Miragens velhas pela sua idade
Velhas na sua história e origem
Cidade madura e dura na margem
Onde as ondas esculpiram calhaus!

Perfurando o fundo das tuas águas
Desarreigo de lá antepassadas mágoas,
Abscônditos olhos arrancados a garfo
De algum rosto esmagado ao crânio safo.

Olhando para cima, vi a amarga fuligem,
Recordando o refúgio, com vertigem,
E antepassados cismando seu focinho
Catando, a olho, a tortura no pelourinho!

Do alto teor de sofrimento escapou gente
E o que agora resta, enluta a sua mente,
Num postergado passado, profundamente dorido
Que hoje é um presente a exibir com alarido.

 

Cidade Velha, Down Town


A cidade velha, down town

Mulheres do Maio na badia

Diz-se aqui que no Maio há mulheres mansas!
De entre outras não selvagens, se destacam,
Drenando permissividade e a homens enganam,
Durante um tempo, sem coices em danças.

Mansas assim todas são, mesmo a minha
Mulher que dá coices e coxeia e me acarinha,
Mas sem me confundir, dá-me a maminha,
Mostrando os dotes amorosos de santinha.

E a minha não é do Maio, é mesmo badia!
É mulher santiaguense, preta e luzidia,
Enfeita-se de tons rosa, vestindo-se a roxo
Empolgando-se, que tira do sério um macho.

Irresistível se torna na combinação de cor,
Incluindo a preta, a rosa, a roxa ao dispor
Insufladas pelos meus olhos saídos da caixa
Irradia-se por mim que a alma não se queixa.

A luz que faz luzir meus olhos nesta luzidia,
Mesmo que outros olhos ma vêm numa badia
Origem do amor que meu kretxeu me inspira,
Rompe com preconceitos e conceitos de birra.